quinta-feira, 18 de maio de 2017

AÇÃO - NÃO - AÇÃO


Como explicar o que uma pessoa sente ou pensa? A razão real das atitudes, das escolhas e dos caminhos que seguem? Como podemos julgar algo que não conhecemos? Como lidar com os mesmos aspectos cíclicos em toda humanidade e dentro de nós mesmos? Como falar e viver a liberdade? O que é liberdade? 
Bom, são diversas perguntas que me faço frequentemente, e todas elas é tentando compreender a mim e a tudo que me envolve, e muitas delas tenho respostas e outras soam efêmeras.Aprendi que falar daquilo que não experimentei, daquilo que não sei, não me faz compreender e/ou mudar nada, apenas gerar novos preconceitos, e até mesmos esses preconceitos são válidos desde que sejam reconhecidos como tal.A matéria que resolvi publicar aqui, relata e esclarece um momento decisivo pra mim, um momento cheio de transições, minha interação anda bem "diferente", até por que em algum momento não sabia nem interagir comigo mesma, sem duvidas mudei muitas coisas sempre no intuito de acertar o que fosse de mais verdadeiro e sincero, e nem sempre fui, as vezes acreditei que estivesse sendo, mas pude refletir e ainda reflito continuamente sobre muitas das escolhas que me fizeram ser o que sou hoje, e agir como venho agindo. A ideia é transmitir um pouco do que venho adquirindo de bagagem e interagir dessa forma com as pessoas que me são tão queridas (todos que estiverem abertos pra isso, e até aqueles que não estão), e que muitas vezes minha personalidade e todo seu conjunto um tanto "sei lá" impede que aconteça, um pouco do meu coração, vazio e vivência, boa leitura.


 Camila Natali














"Os problemas que encontramos em nossas vidas e no mundo (que tratam de nossas relações pessoais ou da fome do mundo) procedem de uma fraqueza energética e um "desencaixe", isto é, de uma inaptidão para apreender seu próprio ser, os outros, a Terra, assim como o modo pelo qual a vida procura mover-se e evoluir através de nós. A questão não é saber se precisamos agir para "fazer alguma coisa", mas saber o que nos faz agir".


Dan Emmons



              Antes de estar preparada para uma nova história, a maioria das pessoas precisa tomar certa distância em relação às antigas, afastar-se, abandoná-las. Isso também vale, sem dúvida, para as sociedades.

Entre o antigo e novo, há um espaço vazio, um período de assimilação das lições e aquisições da antiga história. Esse trabalho precisa ser terminado a fim de que o antigo possa ser encerrado. Em seguida, não há nada: somente um vazio, uma gestação de onde ressurgirá toda existência.

Quando retornamos àquilo que é essencial, reconquistamos a possibilidade de agir e partir dele. No interior do espaço entre as histórias, podemos escolher, com toda a liberdade, muito mais do que fazemos  por hábito. 

Quando temos a impressão de estar "encurralados" chegamos ao melhor momento para não fazer nada. Não tenham medo do espaço vazio! Ele é a fonte para a qual precisamos retornar se quisermos nos libertar das histórias e hábitos que nos fazem permanecer presos. Sim. "Encurralados". Já não queremos entrar nesse espaço, definitivamente. Mas, é para ele que seremos levados. Esse processo não parece familiar pra vocês?

O mundo antigo está ruindo, ao mesmo tempo em que o novo ainda não surgiu. O véu da ilusão foi arrancado de tudo o que parecia permanente e verdadeiro.

Já não sabemos o que pensar nem o que fazer: já não conseguimos captar o sentido de nada. O caminho de vida que traçamos parece insensato e não vemos qualquer outro. Tudo é incerto. Temos a impressão de que o tempo encolheu e que anos se reduziram a semanas, e depois a uma semana só, a um só dia, e, quem sabe, só ao presente momento.

Antigamente, as miragens de ordem pareciam nos proteger e filtrar a realidade. Sem essas miragens, nos sentimos vulneráveis, por mais que percebamos certa liberdade. Possibilidades que, no antigo sistema, pareciam estar ausentes, agora se apresentam a nós, mesmo que não saibamos para que servem.

Nossa cultura lança-nos ao seguinte desafio: permitirmos a nós mesmos permanecer dentro desse espaço vazio e ter confiança de que em seguida virá uma história, logo depois do intervalo, e que, ainda por cima, reconheceremos essa nova história. 

Nossa cultura quer que sigamos em frente, que façamos alguma coisa. Mas o que deixamos para trás não nos larga tão facilmente. Portanto, logo que conseguimos atingir o espaço sagrado entre as histórias, concordamos em estar nele. É realmente uma agonia perdermos as antigas estruturas de segurança. Ora, logo percebemos, no entanto, que nos sentimos à vontade, mesmo quando perdemos aquelas coisas que nunca havíamos imaginado serem tiradas de nós. Há uma espécie de graça protetora no espaço entre as histórias, mas não no sentido de que o casamente, o dinheiro, a carreira e a saúde seriam preservados. Há muitas possibilidades de que um ou outro seja tirado de nós. Por outro lado, descobriremos que mesmo que essa perda venha a acontecer, tudo continua em ordem.

Sentiremos que estamos em ligação mais estreita com um bem mais precioso, algo que o fogo não devora, que os ladrões não roubam, algo que ninguém pode nos privar e que não pode desaparecer. Pode ser que percamos de vista essa coisa. No entanto, ela está sempre lá, à nossa espera. Esse é local de repouso para o qual voltamos quando a velha história chega ao fim. Quando a bruma se eleva, recebemos uma visão do mundo seguinte, da fase da vida que então se apresenta. E, com essa visão que acompanha o vazio, é-nos dada uma força extraordinária!

"Possibilidades que antes não existiam na história antiga apresentam-se, mesmo que não saibamos ainda como utilizá-las". Aí está uma descrição bastante precisa de um lugar para o qual, juntos, iremos nos dirigir. Aqueles dentre nós que deram adeus ao velho, tornam-se os novos órgãos de percepção do corpo coletivo da humanidade.

Quando toda a comunidade humana penetrar o espaço intermediário, estará pronta para receber essas visões, essas tecnologias e formas sociais de coabitação.

Nossa sociedade não chegou absolutamente a esse ponto. Hoje em dia, a maioria das pessoas pensa que as antigas soluções ainda produzirão o efeito esperado. Elegemos um novo presidente ou um novo governador, produzimos uma invenção, há uma retomada econômica - e isso é o suficiente para nos devolver um pouco de esperança para viver. Quem sabe as coisas voltarão a ser conforme eram antigamente! Quem sabe o gênero humano seguirá seu caminho rumo ao progresso! Na época atual, poderíamos considerar que a situação não é tão crítica assim. Na verdade, com muitos "se" poderemos assar por elas sem problemas: se descobrirmos novas fontes de petróleo; se construirmos a estrutura adequada para o progresso econômico; se solucionarmos o quebra-cabeça molecular das doenças autoimunes; se pudermos contratar mais aviões sem piloto contra o crime e o terrorismo; se pudermos aumentar as colheitas, utilizando vegetais geneticamente modificados; se conseguirmos colocar um pigmento branco no cimento para refletir os raios solareis e, assim, evitar o aquecimento global do planeta...

Quando percebemos que todas essas providências ocasionariam involuntariamente efeitos ainda mais graves do que os próprios problemas, vemos que adotar o "não fazer" não exige um esforço tão grande. Não fazer nada é um fenômeno natural que decorre da antiga história que está chegando ao fim. Essa inação exige que esgotemos o que pudermos para apressar o fim do que é velho. Ao invés de tomarmos novas iniciativas- controlar os bancos, baixar as taxas de juros, criar moedas, relançar a economia etc. - os políticos deixarão as coisas como estão dizendo uns aos outros: "Vamos percar!"

Chegará a hora em que seremos obrigados a parar tudo, sem a minima ideia do que deveria ser realizado.  Sem metas, com um mapa antigo nas mãos, vamos ficar rodando sem encontrar uma saída. Para sairmos, teremos que dobrar o mapa e olhar à nossa volta.

Ás vezes você se pega pensando "Vamos pescar!" Agora que a história antiga está chegando ao fim? Deixar pra depois, preguiça, veleidades, tentativas. Tudo isso são sinais que nos ensinam que as história antiga já não consegue nos impulsionar para frente.

Lá onde antigamente havia um sentido, já não existe nada.

E assim nos retiramos suavemente deste mundo. Quanto à sociedade, ela faz o que pode para nos convencer a não concretizarmos essa retirada.

Se não fizermos isso, sentiremos depressão. Remédios químicos cada vez mais potentes serão necessários para fazer com que nos ocupemos do que já não nos interessa e que, para nós, já não tem qualquer valor.

Quando a angustia diante da miséria já não adianta, talvez os medicamentos psiquiátricos possam ser de alguma ajuda. Assim, tudo é colocado em operação para nos fazer participar, custe o que custar, de nossa rotina habitual, de tudo o que temos de fazer.

Esse abatimento que nos impede de ter energia para participar da vida, tal como ela nos é apresentada, também se expressa no plano coletivo. Por falta de uma motivação mais poderosa, nossa sociedade vai se arrastando e realiza apenas a metade do que deveria ser feito. A depressão se manifesta no nível da economia, pois nossa vontade coletiva - o dinheiro - já não circula. Já não há dinheiro suficiente no circuito para realizar algo maior. As autoridades agem, mas com um efeito cada vez menor, como se fosse injeção de insulina para um diabético que resiste a esse produto. 

O que antigamente favorecia uma conjuntura mais elevada, mostra-se apenas suficiente para impedir uma pane na economia. Ora, uma pane como seria uma boa maneira de deixar que tudo pare. Muitas coisas ainda, como tudo o que nos faz abandonar a história antiga e seus regulamentos, poderiam provocar essa parada.

"Não fazer nada" não é uma sugestão universal, mas ela caracteriza o fim de uma história e a entrada no espaço entre duas histórias.

Falar a respeito do wu wei é muito apropriado, nessa oportunidade. Por mais que possamos traduzir wu wei por "não fazer", haveria outra tradução, mais apropriada, que seria: chega de elucubrações, de artifícios. Não se deve forçar nada. Ou seja: absoluta liberdade de ação. Isto é: agir no momento adequado, não fazer nada se não for o caso. Melhor ainda: realizar o ato que está de acordo com o movimento natural das coisas, a serviço daquilo que quer nascer.

E agora, ofereço aos leitores minha própria tradução dos belos versos muito inspiradores do Tao Te KIng de Lao Tsé - a segunda parte do número 16 - difícil de ser traduzida, por causa do estilo compacto e das diversas camadas de sentido:



Todas as coisas voltam à sua origem.
Voltando à origem, o silêncio reina.
No silêncio, a verdadeira meta retorna.
É o que realmente é.
Quando se conhece o real, há clareza.
Ignorar o real causa catástrofes, pela ação estúpida.
Do conhecimento da realidade procede a espacialidade.
Da espacialidade, a imparcialidade.
Da imparcialidade, a autoridade independente.
Da autoridade independente vem o que é natural.
O que é natural é o Tao.
Do Tao procede o que permanece, incessantemente,
Para além de mim mesmo.











Bibliografia: Charles Einseintein, The More Beautiful World Our Hearts Know is Possible. ["Este mundo mais belo, que nosso coração conhece, é possível"] pp. 121-125, ed. North Atlantic Books, Berkeley Claifornia, 2013.

Fonte:  http://www.pentagrama.org.br/produto/revista-2014-numero-3/

Nenhum comentário:

Postar um comentário